Arquivo de Março de 2008
Crédito e Risco & Economia & Mundo Coface admin em 22 Mar 2008
CFO Profissão Pressão 1
Um novo ambiente de negócios
Vida de CFO brasileiro nunca foi fácil. Nos anos 80 e a até a 1ª metade dos anos 90 era a combinação de alta inflação com os inúmeros planos econômicos heterodoxos.
Agora, apesar da estabilidade monetária e considerável abundância de liquidez, o CFO se depara com uma nova ameaça: a diversidade. Como?
As fontes de captação são inúmeras, assim como os seus desafios: os IPOs apresentam desafios mais complexos que o crédito tradicional, pois mexem com o valor da empresa e, por tabela, com a riqueza do acionista. De forma similar, a venda de parte da empresa para um fundo de private equity, além do valor da empresa o CFO deverá liderar e lidar com uma profunda (e invasiva) alteração na governança da empresa.
A globalização dos negócios trouxe novas e amplificadas oportunidades e ameaças, sob a forma de novos clientes-parceiros na cadeia de valor e crises de difícil antecipação e controle.
Crédito e Risco admin em 09 Mar 2008
Crise Global e seus reflexos no Crédito
Nos últimos 25 anos a economia mundial tem sido sacudida por uma série considerável de crises internacionais, mas não há registro de tamanha dispersão de visões sobre os desdobramentos da crise como nesta que estamos vivendo. Ilustres economistas e renomados ex-presidentes de organismos multi-laterais e de bancos centrais vêm emitindo análises e profecias surpreendentemente díspares.
De fato, esta crise é única em função da combinação dos fatores abaixo descritos os quais não estavam presentes no passado:
1. A crise microeconômica do setor imobiliário americano, turbinada por crédito bancário, gera e gerará redução do poder de consumo da economia americana, que é a locomotiva consumista do planeta.
2. O mundo nunca foi tão interconectado, tal como uma força motriz onde os EUA puxam China e Índia, que em conjunto puxam os preços das commodities, que elevam a renda nos países emergentes que as exportam. Boa parte do capital excedente de um mundo enriquecido após quase uma década de crescimento vigoroso acaba sendo reciclado - via fundos de private equity e IPOs - em economias como a brasileira.
3. Nenhum país quebrou, nenhuma moeda de relevância foi atacada.
As bolsas por seu turno sofreram os habituais abalos sísmicos de alta intensidade, mas isto não deveria ser surpresa para ninguém. É sabido, natural e pouco lógico, mas o mercado de capitais sempre amplifica movimentos. Não deveria suscitar tamanha atenção, mas é assim que as coisas funcionam.
E a economia real, como será afetada por esta crise?
Estudos da Coface dão conta que as crises combinadas dos anos 2000-2002 os atrasos/default no crédito comercial - entre empresas - registraram um aumento de até 30%. Interessante notar que aquela crise foi provocada por outros fatores únicos, também nos EUA, como o estouro da bolha das empresas ponto-com, o ataque ao World Trade Center e as fraudes contábeis (Enron, WorldCom, etc.). Naquela ocasião o maior problema foi a seqüência de eventos ao longo daquele período. Quando uma ferida estava pronta para cicratizar, vinha outro acidente para abrir e infeccionar o corte e assim por diante.
Desta vez, acreditamos que o impacto será menor, com a inadimplência aumentando em torno de 10%. Se a economia americana realmente entrar em recessão prolongada este número subirá para 20%.
Estamos certos, portanto, que os efeitos negativos desta crise serão mitigados pelo simples fato de que, numa extensão maior ou menor (ninguém sabe ao certo), há um descolamento entre os EUA e o resto do mundo. A China, como grande provedora mundial de bens manufaturados destinados ao consumo, ainda encontrará mercados com apetite suficiente para manter suas caldeiras aquecidas. É provável que a China não cresça 11% em 2008 - que seja 8%, ou 7% -, mas será o bastante para que a economia mundial continue crescendo pouco acima dos 4%, como estima o FMI. Os preços das commodities registrarão algumas quedas, mas nada que quebre o circulo virtuoso que se formou a partir do crescimento sustentado de China e Índia.
A Europa da Eurozona, por exemplo, não está tomando conhecimento da crise americana e seu banco central se recusa a cortar as taxas de juros. Sua preocupação não é nada global, mas sim sua inflação doméstica, daí a manutenção de sua política monetária.
De fato, na essência esta não é uma crise global, mas sim uma crise microeconômica nos Estados Unidos irradiando insegurança aos agentes econômicos locais e internacionais de um modo geral. Acreditamos que há mais ignorância quanto aos reais efeitos da crise imobiliária americana do que propriamente movimentos relevantes na economia real - salvo na combalida cadeia de valor imobiliária americana, esta sim gravemente afetada. O momento é de desordem mental que se reflete na paralização de investimentos, restrição de crédito, repatriação de capital, consumidor inseguro por conta do risco de sua empregabilidade, entre outras questões de menor relevância.
É esta combinação de expectativas negativas com ações restritivas de curto-prazo que gerará uma degradação das condições de crédito nos próximos 6 a 12 meses. Contra este risco comercial a solução é fazer gestão de risco, o que inclui melhor seleção dos clientes, informação atualizada, gestão de prazos de pagamento e limites de crédito (modelos bem calibrados), ou fazer seguro de crédito e venda de recebíveis.
Perigo mesmo seria uma contração mais forte dos mercados financeiros e de capitais, seja por conta da redução do capital disponível de certos bancos e investidores, seja por redução do apetite de risco. Sucede que apesar de ser natural que os decisores de crédito das instituições afetadas estejam repensando os processos internos que levaram a tais perdas, os agentes financeiros só lucram quando emprestam - e como estes agentes precisam recuperar as perdas com o subprime, terão que continuar emprestando e a roda logo começará a girar com velocidade de novo.
Definitivamente não estamos diante da crise global anunciada na fatalista semana de 21 de janeiro, mas viveremos uma boa dose de incerteza até que a curva de percepção de risco se encontre com a da realidade.