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Economia admin em 08 Jun 2008

Capitalismo Acelerado e decisões corporativas

Caros - há um ‘comentário’ recente do Daniel Nobre, seguido de outro do Frederico Madureira, que deram ‘ganchos’ para que eu continuasse, então aqui vai mais um post (e espero mais contribuições deles e de vocês todos, pois o assunto é instigante).

Daniel, eu concordo com você que o Chuck Prince, do Citibank, teria perdido o empregao um ano antes se não partisse para o mercado de alto risco (que na época era mais visto como exotico). Isto aconteceria porque o seu banco ficaria para trás dos seus competidores, em termos de receitas, lucros e market-share. Os jornais diriam que o Citibank “não é mais o mesmo” e que teria ficado excessivamente conservador, e por aí seguiria o calvário de Mr. Prince.

Para não ficar pra trás, ele e muitos outros preferiram entrar no ‘cassino’ e se deram mal coletivamente. Minha tese é que vivemos uma nova era, a qual batizei tempos atrás de Capitalismo Acelerado, onde a performance (e a competência) dos CEOs é julgada a cada trimestre, quando os analistas de ações julgam a performance das empresas abertas. É mais ou menos assim que acontece:

1. O CEO desenha um planejamento estratégico para os próximos 5 anos - logicamente este trabalho leva vários meses e envolve todos os executivos, sem falar no custo dos consultores que o apoiam.
2. Aí o CEO vai ao Board e apresenta o seu Plano. O mesmo é aprovado e todos saem felizes do ‘board room’ para um jantar requintado, regado a ótimos vinhos.
3. O próximo passo é o CEO chamar reuniões (’road shows’) com os analistas de ações e com imprensa, em eventos repletos de slides de power-point, análises e projeções, etc.
4. Os analista saem do evento - que também tem cocktail de alto nível - e eventualmente recomendam que os investidores comprem as ações da empresa.
5. As ações começam a subir, os acionistas (os mesmos que aprovaram o projeto do CEO) ficam muito felizes e decidem pagar um belo (!!) bonus para o CEO e sua equipe.
6. A alegria e a motição abundam na empresa.

Mas a vida real é muito mais complicada que as análises e projeções poderiam sugerir. Todo tipo de incerteza acontece no mundo real, e.g. crises externas afetam o mercado dos clientes da empresa - e por tabela afetam o mercado da própria empresa -, e/ou algum problema no fornecimento encarecerá o custo de produção, e/ou uma nova tecnologia lançada por um competidor-chave o lançara à frente da empresa, etc., etc., etc. - a lista é interminável.

7. Chega a hora de apresentar os resultados do próximo trimestre e o tradicional encontro entre CEO e analistas tem um ‘humor’ radicalmente diferente: o CEO e seu time são acusados de todos os males da humanidade, parecendo que a empresa está a ponto de quebrar!
8. Os mesmos analistas saem da reunião, recomendam a venda das ações - apesar de há pouco terem dito o contrário.
9. Investidores, pouco preocupados com a perspectiva de longo-prazo, resolvem vendem pra valer e, naturalmente, o preço das ações caem.
10. O CEO fica arrasado, começa a ser questionado de suas habilidades por parte dos acionistas ‘estruturais’, e o clima na empresa fica pesado, dá para cortar o ar com uma faca.
11. Por vontade própria, e/ou por pressão de sua equipe direta (que não quer perder mais uma rodada de bonus maravilhosos), e/ou por pressão dos acionistas, o nosso CEO parte para mais um plano de (salv)ação - este, porém, de visão mais imediatista e ARRISCADA!

O novo plano demonstra claramente que os lucros virão rapidamente, até para calar os tais analistas e reverter a tendência de baixa das ações, mas, principalmente, para reforçar a imagem dele perante o seu board.

12. Logicamente o novo Plano é aprovado pelo board - mas desta vez não há champagne.

Daí pra frente é o que se vê em todas as crises - globais ou empresariais. Invisivelmente há uma voz que diz: “Vamos para o plano arrojado, do contrário perderemos muito”. E se der tudo errado? “Bem, a culpa é de todo mundo”, ou ainda: “não temos nada a perder”.

Neste exemplo terrivelmente real, o primeiro plano estratégico talvez fosse bom mesmo - e duradouro -, mas precisava de tempo para se provar. Seria razoável aguentar uma crise, fazer-se alguns ajustes de sintonia fina e seguir em frente. Mas não, pois os analistas são acelerados, os investidores são acelerados, tornando os acionistas estruturais acelerados também - ninguém mais tolera um ou dois trimestre de queda nas ações! O CEO e seu time são logo chamados “a fazer algo”. São cobrados a serem acelerados também. Mas e os próximos 5 anos e a perpetuidade da empresa? Dane-se o longo-prazo! Se eu e você não sobrevivermos ao curto-prazo de que adianta pensar no longo. É assim que se pensa hoje em dia e EU NÃO CONCORDO COM ISSO.
Esta lógica é de uma frieza absurda e de pouca sustentabilidade. Um modo de produção como o capitalismo, que pressupõe a perpetuidade dos negócios, não pode ser reavaliado trimestralmente. É contra a própria lógica do sistema.

Mas fazer o que? Assim é o Capitalismo Acelerado, e é nele que estamos inseridos.

Do it (right!) or DIe.

Daniel e Frederico, meus caros, aguardo a continuação! Ah, e gostaria que vocês citassem economistas/artigos que tratem desta nova lógica, que é tão recente.

Abraços, FB

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